Paulo Bento e o futuro do SCP
6 Novembro, 2009
Porque partilho da opinião deste jornalista aqui vai:
A conferência de imprensa organizada para explicar a saída de Paulo Bento serviu para confirmar que o Sporting tinha um treinador com carácter, íntegro e corajoso, afinal de contas, nada que já não se soubesse. Mas também para se perceber que José Eduardo Bettencourt não aprendeu muito com uma situação idêntica passada há mais de quatro anos naquela mesma sala.
De facto, a única verdadeira diferença foi que Dias da Cunha decidiu, na altura, acompanhar José Peseiro na demissão, enquanto Bettencourt assumiu que nunca seria “capaz” de despedir um treinador cujo abandono considera uma “perda irreparável”. Por outro lado, Bettencourt confessa que Paulo Bento sai em resultado da sua própria lucidez e capacidade de ler a situação e de não misturar conhaque com trabalho. Independentemente do claro contra-senso, salta à vista que, ao dizê-lo, o presidente leonino acabou por reconhecer que a relação profissional entre o presidente e o treinador esteve e estaria sempre condicionada pela forte componente humana que os une. É uma assumpção que pode ser muito honesta, mas que parece estranha e muito discutível vinda de alguém que ainda há bem pouco desempenhava funções de grande responsabilidade no sistema bancário. E é-o também por partir de quem lidera uma Sociedade Anónima Desportiva, onde se exige um rigor e uma gestão pautada acima de tudo pelo pragmatismo e racionalidade.
Mais do que fazer a sua própria leitura da situação e apontar o caminho futuro, Bettencourt assumiu estar ali basicamente para fazer a homenagem de quem ia sair, um “momento doloroso”. O que parece legítimo e até lhe ficaria bem, não fosse a oportunidade ter sido também aproveitada para fazer uma espécie de ajuste de contas com muitos daqueles que foram criticando o clube e Paulo Bento e que, ironizou Bettencourt, “só têm certezas”. Um erro, porque o momento devia era ter sido aproveitado para contribuir para a pacificação da nação sportinguista, cuja generalidade dos seus membros até se têm mantido surpreendentemente pacientes face à deprimente incapacidade da equipa de produzir (bom) futebol.
Que Bettencourt se mostrasse afectado pelas circunstâncias até era compreensível, mas já não o foi vê-lo responder de forma excessivamente nervosa e desabrida a algumas questões colocadas pelos jornalistas, usando até expressões que não o dignificam. Vá lá que teve pelo menos a decência de pedir imediatamente desculpa, após responder ao jornalista do PÚBLICO que o próximo treinador será do “sexo masculino e caucasiano”. Bettencourt tem mostrado, desde a primeira hora, a intenção clara de utilizar um discurso e uma postura mais próximos dos adeptos anónimos, podendo isso até fazer parte da actual estratégia de conquista de novos sócios. Mas os seus excessos na verve e na postura começam a não agradar apenas àqueles que se habituaram a ver Alvalade como a sede de um clube elitista e aristocrata.
Pelo contrário, Paulo Bento distinguiu-se pelo discurso sereno e frontal, mesmo que aqui e ali algo redondo, como é hábito. Disse o que se impunha, mostrou lucidez até na forma como reconheceu ter cometido um erro quando não teve coragem de recusar o repto do amigo Bettencourt e acabou por colocar o coração à frente da razão. E principalmente quando deixou claro que não sai pelos maus resultados nem pela pressão dos adeptos ou da opinião pública ou publicada. Sai, digo eu, porque se sente impotente para reverter a situação. Daí ter insistido que se demite “pelos jogador e pelo Sporting”. Foi o último serviço prestado por um treinador a quem, no Sporting, só se fará a devida justiça daqui a algum tempo, quando a espuma dos últimos meses desaparecer. Então, talvez se venha a perceber melhor o que, a 300 quilómetros de distância, quis dizer Jesualdo Ferreira, quando afirmou que “a sua carreira começou hoje”…
Pode ler a notícia no PUBLICO on-line.

O exemplo da Suécia
6 Setembro, 2009
Esquerda, direita, modelo social e o exemplo da Suécia
José Manuel Fernandes – 20090906
A evolução recente do chamado “modelo sueco” oferece boas pistas para analisar onde se situam as propostas políticas e eleitorais dos partidos portugueses. Por onde passam as grandes linhas divisórias das propostas eleitorais em debate? As grandes, pelo menos no que respeita ao modelo económico e social, estão entre o PS e os partidos à sua direita, passam pelo interior do PS ou estão entre o PS e os partidos à sua esquerda?
Para responder a esta questão vale a pena olhar para a Suécia e para o chamado “modelo sueco”, para percebermos melhor o que está em causa quando olhamos para os diferentes programas políticos. Para isso, vamos socorrer-nos de uma recente intervenção, numa conferência em Estocolmo, de um economista cujo nome pouco dirá aos portugueses: Assar Lindbeck. Professor na Universidade de Estocolmo, foi ele o escolhido para liderar a comissão que, em 1992-1993, propôs ao Governo da Suécia um conjunto de medidas que permitiram ao país superar a grave crise que então atravessava. Essa comissão ficou mesmo conhecida como “comissão Lindbeck” e as medidas que recomendou foram radicais e heterodoxas, tendo ido da nacionalização temporária de alguns bancos até à introdução de concorrência no interior do sistema de protecção social do país. Uma das características desse período de reformas que fizeram o país superar a crise foi a forma como as principais forças políticas suecas – liberais e sociais-democratas – foram capazes de chegar, no Parlamento, a plataformas de entendimento que permitiram a continuidade das políticas então decididas.
Lindbeck, nessa sua intervenção, dividiu a história moderna da Suécia e do “modelo sueco” em três períodos: entre 1870 e 1960, vigorou um período liberal (apesar de décadas de governos liderados por sociais-democratas), em que o Estado assegurou a educação e a saúde para todos, dotou o país de infra-estruturas básicas e garantiu legislação estável que permitia às empresas crescerem e competirem. Em 1960, a Suécia, que um século antes era uma sociedade rural, era o terceiro país com maior riqueza média por habitante.
Entre 1960 e 1990, os governos suecos mantiveram o modelo económico e até liberalizaram mais os mercados, para responderem à globalização, mas ao mesmo tempo criaram um “Estado social” tão generoso que o peso da despesa pública duplicou, chegando aos 65 por cento do PIB, com as taxas dos impostos a subirem até aos 70 por cento. No final deste período, o PIB per capita na Suécia não deixou de crescer, mas o país perdeu terreno, passando de 3.º para 17.º lugar entre todas as nações do mundo.
Com a entrada na União Europeia, em 1990, a Suécia entrou num terceiro período económico, tendo logo em 1991 o governo social-democrata diminuído as taxas máximas dos impostos entre 10 e 20 por cento. Ao mesmo tempo, nos diferentes sectores abrangidos pelo “Estado social” foram introduzidas reformas que corresponderam à sua desregulação e privatização, sem que o Estado tivesse deixado de assegurar o financiamento de todos os serviços. Porém, em vez do monopólio público no fornecimento de assistência aos idosos, no sistema educativo ou na rede de jardins-de-infância, passou a ser possível a concorrência entre instituições públicas e entre estas e instituições privadas. As famílias passaram a ter liberdade de escolha. Na área dos impostos, um governo social-democrata acabou com o imposto sobre as heranças e um liberal com o imposto sobre a riqueza. Os dois grandes partidos continuam de acordo que o “Estado social” deve continuar a ser sustentado pelo Estado através do sistema fiscal, mas ambos já convergem na ideia de que deve haver um maior recurso a mecanismos de capitalização (utilizando os mercados de capitais) no financiamento da segurança social.
O resultado destas reformas, muitas delas propostas pela “comissão Lindbeck”, foi o retomar de um crescimento económico mais vigoroso (a Suécia voltou a subir alguns degraus na tabela dos países com mais riqueza por habitante), ao mesmo tempo que o peso do Estado na economia recuava para 53 por cento.
Claro que o centro-direita e o centro-esquerda não estão de acordo em todos os detalhes destas reformas, nem no seu ritmo, mas podemos dizer que o “consenso sueco” evoluiu na última década e meia da noção de que deve ser o Estado a fornecer todos os serviços associados ao seu “modelo social” – seguindo o princípio de que um serviço público tem de ser prestado por uma entidade pública – para a de o Estado dever garantir o acesso universal dos cidadãos aos serviços do “Estado social”, mas poder haver concorrência entre o sector público, o sector privado e o terceiro sector no fornecimento final desses serviços. O Estado deixou de ser o “fornecedor universal”, para ser a “garantia da universalidade” do fornecimento dos serviços sociais. Ao mesmo tempo, o centro-direita e o centro-esquerda continuam a defender a superioridade da economia de mercado, crescentemente liberalizado e desregulado e onde a competição entre as empresas apenas depende da sua capacidade de inovar e serem eficientes, sem interferências do poder político.
Amanhã veremos como as propostas dos principais partidos políticos se cruzam com as lições do “modelo sueco”.

Sócrates e a Liberdade
6 Setembro, 2009
Um professor na escola exigia silêncio e cumprimento dos deveres?
Fascista! Um engenheiro dava instruções precisas aos trabalhadores no estaleiro? Fascista! Um médico determinava procedimentos específicos no bloco operatório? Fascista! Até os pais que exerciam as suas funções educativas em casa eram tratados de fascistas.
Pode parecer caricatura, mas essas tontices tiveram uma vida longa e inspiraram decisões, legislação e comportamentos públicos. Durante anos, sob a designação de diálogo democrático, a hesitação e o adiamento foram sendo cultivados, enquanto a autoridade ia sendo posta em causa. Na escola, muito especialmente, a autoridade do professor foi quase totalmente destruída.
EM TRAÇO GROSSO, esta moda tinha como princípio a liberdade. Os denunciadores dos ‘fascistas’ faziam-no por causa da liberdade. Os demolidores da autoridade agiam em nome da liberdade. Sabemos que isso era aparência: muitos condenavam a autoridade dos outros, nunca a sua própria; ou defendiam a sua liberdade, jamais a dos outros. Mas enfim, a liberdade foi o santo e a senha da nova sociedade e das novas culturas. Como é costume com os excessos, toda a gente deixou de prestar atenção aos que, uma vez por outra, apareciam a defender a liberdade ou a denunciar formas abusivas de autoridade. A tal ponto que os candidatos a déspota começaram a sentir que era fácil atentar, aqui e ali, contra a liberdade: a capacidade de reacção da população estava no mais baixo.
POR ISSO SINTO INCÓMODO em vir discutir, em 2008, a questão da liberdade. Mas a verdade é que os últimos tempos têm revelado factos e tendências já mais do que simplesmente preocupantes. As causas desta evolução estão, umas, na vida internacional, outras na Europa, mas a maior parte residem no nosso país. Foram tomadas medidas e decisões que limitam injustificadamente a liberdade dos indivíduos. A expressão de opiniões e de crenças está hoje mais limitada do que há dez anos. A vigilância do Estado sobre os cidadãos é colossal e reforça-se. A acumulação, nas mãos do Estado, de informações sobre as pessoas e a vida privada cresce e organiza-se. O registo e o exame dos telefonemas, da correspondência e da navegação na Internet são legais e ilimitados. Por causa do fisco, do controlo pessoal e das despesas com a saúde, condiciona-se a vida de toda a população e tornam-se obrigatórios padrões de comportamento individual.
O CATÁLOGO É ENORME. De fora, chegam ameaças sem conta e que reduzem efectivamente as liberdades e os direitos dos indivíduos. A Al Qaeda, por exemplo, acaba de condicionar a vida de parte do continente africano, de uma organização europeia, de milhares de desportistas e de centenas de milhares de adeptos. Por causa das regulações do tráfego aéreo, as viagens de avião transformaram-se em rituais de humilhação e desconforto atentatórios da dignidade humana. Da União Europeia chegam, todos os dias, centenas de páginas de novas regulações e directivas que, sob a capa das melhores intenções do mundo, interferem com a vida privada e limitam as liberdades. Também da Europa nos veio esta extraordinária conspiração dos governos com o fim de evitar os referendos nacionais ao novo tratado da União.
MAS NEM É PRECISO IR LÁ FORA. A vida portuguesa oferece exemplos todos os dias. A nova lei de controlo do tráfego telefónico permite escutar e guardar os dados técnicos (origem e destino) de todos os telefonemas durante pelo menos um ano. Os novos modelos de bilhete de identidade e de carta de condução, com acumulação de dados pessoais e registos históricos, são meios intrusivos. A vídeovigilância, sem limites de situações, de espaços e de tempo, é um claro abuso. A repressão e as represálias exercidas sobre funcionários são já publicamente conhecidas e geralmente temidas A politização dos serviços de informação e a sua dependência directa da Presidência do Conselho de Ministros revela as intenções e os apetites do Primeiro-ministro. A interdição de partidos com menos de 5.000 militantes inscritos e a necessidade de os partidos enviarem ao Estado a lista nominal dos seus membros é um acto de prepotência. A pesada mão do governo agiu na Caixa Geral de Depósitos e no Banco Comercial Português com intuitos evidentes de submeter essas empresas e de, através delas, condicionar os capitalistas, obrigando-os a gestos amistosos. A retirada dos nomes dos santos de centenas de escolas (e quem sabe se também, depois, de instituições, cidades e localidades) é um acto ridículo de fundamentalismo intolerante. As interferências do governo nos serviços de rádio e televisão, públicos ou privados, assim como na ‘comunicação social’ em geral, sucedem-se. A legislação sobre a segurança alimentar e a actuação da ASAE ultrapassaram todos os limites imagináveis da decência e do respeito pelas pessoas. A lei contra o tabaco está destituída de qualquer equilíbrio e reduz a liberdade.
NÃO SEI SE SÓCRATES É FASCISTA. Não me parece, mas,sinceramente, não sei. De qualquer modo, o importante não está aí. O que ele não suporta é a independência dos outros, das pessoas, das organizações, das empresas ou das instituições. Não tolera ser contrariado, nem admite que se pense de modo diferente daquele que organizou com as suas poderosas agências de intoxicação a que chama de comunicação. No seu ideal de vida, todos seriam submetidos ao Regime Disciplinar da Função Pública, revisto e reforçado pelo seu governo. O Primeiro-ministro José Sócrates é a mais séria ameaça contra a liberdade, contra autonomia das iniciativas privadas e contra a independência pessoal que Portugal conheceu nas últimas três décadas TEMOS DE RECONHECER: tão inquietante quanto esta tendência insaciável para o despotismo e a concentração de poder é a falta de reacção dos cidadãos. A passividade de tanta gente. Será anestesia? Resignação?
Acordo? Só se for medo…
António Barreto \ Público”

O PS de Sócrates é contra a liberdade
6 Setembro, 2009
Opinião: O PS de Sócrates é contra a liberdade
04.09.2009 – 15h15 Eduardo Cintra Torres
A decisão de censurar o Jornal Nacional de 6ª (JN6ª) foi tudo menos estúpida. O núcleo político do PS-governo mediu friamente as vantagens e os custos de tomar esta medida protofascista. E terá concluído que era pior para o PS-governo a manutenção do JN6ª do que o ónus de o ter mandado censurar. Trata-se de mais um gravíssimo atentado do PS de Sócrates contra a liberdade de informar e opinar. Talvez o mais grave. O PS já ultrapassou de longe a acção de Santana Lopes, Luís Delgado e Gomes da Silva quando afastaram a direcção do DN e Marcelo da TVI.
A linguagem de Santos Silva e do próprio Sócrates na quinta-feira sobre o assunto não engana: pelo meio da lágrimas de crocodilo, nem um nem outro fizeram qualquer menção à liberdade de imprensa. Falaram apenas dos interesses do PS e do governo. Sócrates, por uma vez, até disse uma verdade: o PS não intervinha no JN6ª. Pois não, foi por isso que varreu o noticiário do espaço público.
O PS-Governo de Sócrates não consegue coexistir com a liberdade dos outros. Criou uma central de propaganda brutal que coage os jornalistas. Intervém nas empresas de comunicação social. Legisla contra a liberdade. Fez da ERC um braço armado contra a liberdade (a condenação oficial do JN6ª pela ERC em Maio serviu de respaldo ao que aconteceu agora). Manda calar os críticos. Segundo notícias publicadas, pressiona e chantageia empresários, procura o controle político da justiça e é envolvido em escutas telefónicas. Cria blogues de assessores com acesso a arquivos suspeitos que existem apenas para destruir os críticos e os adversários políticos. Pressiona órgãos de informação. Coloca directa ou indirectamente “opiniões” e “notícias” nos órgãos de informação. Etc.
O relato da suspensão do JN6ª, no Jornal de Notícias e no Diário de Notícias e outros jornais de ontem é impressionante, sinistro e muito perigoso. Provir de supostos “socialistas”, portugueses e espanhóis, em nada diminui a gravidade desta censura. Esta suposta “esquerda” dos interesses, negócios e não resolvidos casos de justiça é brutal.
Intervindo na TVI, o PS-Governo atingiu objectivos fundamentais. Como disse Mário Crespo (SICN, 03.09), o essencial resume-se a isto: J.E. Moniz e M. Moura Guedes foram eliminados —e com eles as direcções de Informação e Redacção e um comentador independente como V. Pulido Valente.
Este PS-Governo é muito perigoso para a liberdade. Até o seu fundador está preso nesta teia, por razões que têm sido referidas. Ao reduzir a censura anticonstitucional, ilegal e protofascista do JN6ª a um caso de gestão, Soares desceu ao seu mais baixo nível político. É vergonhoso que seja ele, o da luta pela liberdade, a dizer uma coisa destas. Será que em 1975 o República também foi calado só por “razões de empresa”?
O PS-governo segue o mesmo caminho de Chàvez, ao perseguir paulatinamente, um a um, os seus críticos: e segue o mesmo caminho de Putin, ao construir uma democracia meramente formal, em que se pode dizer que a decisão foi da Prisa não dele, em que se pode dizer que os empresários são livres, que os juízes são livres, que os funcionários públicos são livres, que os professores são livres, que os jornalistas são livres, que a ERC é livre, etc — mas o contrário está mais próximo da verdade. Para todos os efeitos, Portugal é uma democracia formal, mas estas medidas protofascistas vão fazendo o seu caminho. Não dizia Salazar que Portugal era mais livre que a livre Inglaterra? Sócrates e Santos Silva dizem o mesmo.

A culpa é sempre dos outros
17 Maio, 2009
A culpa é sempre dos outros
António Barreto Retrato da Semana – 20090517
Lopes da Mota é o representante ideal. Ele é o genuíno e fiel símbolo da justiça portuguesa. Omagistrado Lopes da Mota não deve sair do Eurojust. Não deve suspender o seu cargo. Nem pedir a demissão. Nem ser demitido. Se a representação de um Estado deve traduzir a verdade, ele é o homem certo no lugar certo. Não se compreenderia, por exemplo, que o representante do Estado português, em qualquer organização internacional, não soubesse falar a língua materna. Nem que o delegado de Portugal à NATO fosse um pacifista militante e um notório objector de consciência. Lopes da Mota é discutido e comentado em todos os jornais. É acusado de ter sido autor ou instrumento de pressões pessoais e políticas exercidas sobre outros magistrados. Por causa dessa acusação e após averiguações, é alvo de um processo disciplinar mandado fazer pelo procurador-geral da República. A maioria dos políticos e dos comentadores diz que se deve demitir e não reúne condições para exercer o cargo. O primeiro-ministro, que o nomeou, diz que não tem nada a ver com o caso. Este currículo, limitado a uns factos recentes de conhecimento geral, faz dele o representante ideal num organismo europeu de coordenação entre os sistemas judiciários. Ele é o genuíno e fiel símbolo da justiça portuguesa. Ajustiça portuguesa é cara, lenta e burocrática. Está geralmente mais interessada no processo do que no apuramento da verdade dos factos e na prova. Os magistrados não são avaliados por entidade independente. Os sindicatos de magistrados são máquinas de poder político e corporativo a que o Estado democrático não soube opor-se. Os conselhos superiores servem os interesses das corporações e impedem que a voz dos cidadãos tenha alguma força e que a legitimidade democrática tenha eficácia na sua organização. A justiça portuguesa é um condomínio fechado, hermético e impermeável ao interesse público e às ansiedades dos cidadãos. A circulação entre conselhos superiores, sindicatos e tribunais superiores, passando, por vezes, por cargos políticos, consagra o poder de uma casta impune e inamovível. Muitos agentes da justiça, juízes, procuradores, polícias e advogados participam, sem contenção nem reserva, nos debates públicos, têm presença garantida nas televisões, nas rádios e nas capas dos jornais. Alguns orgulham-se dos seus sindicatos, entidades híbridas e absurdas dedicadas a organizar duas classes profissionais, a dar-lhes peso e força política e a preservar privilégios. Dirigem-se à opinião pública com ilimitada arrogância, evocando a sua independência, que consideram autogestão e soberania. As técnicas de investigação são toscas e, por vezes, atentatórias dos direitos dos cidadãos. Questões de família são adiadas anos, por vezes até à morte de um dos interessados. Conflitos comerciais não têm resolução, a não ser pelo desaparecimento das respectivas pessoas ou empresas. Por causa do processo e do atraso, as compensações obtidas pelas vítimas ficam aquém dos prejuízos causados. Crimes de corrupção, apesar de provados, são desculpados. Os procuradores têm poder a mais e não têm qualquer reserva na sua intervenção política, nem no modo como querem condicionar juízes, advogados e políticos. As fugas de informação e as famigeradas quebras de segredo e sigilo de justiça, geralmente dirigidas e deliberadas, são o mais impressionante retrato do estado a que a justiça portuguesa chegou. A reputação da justiça portuguesa no estrangeiro é medíocre e risível. A opinião pública portuguesa considera os magistrados e a justiça como um dos sectores da vida pública que menos merecem respeito e confiança. A justiça portuguesa cria, não resolve problemas. Aculpa é um fenómeno errático e fugidio. A sua trajectória é circular. Juiz, procurador, oficial de justiça, advogado, solicitador, polícia, ministro e deputado: cada um tem a certeza do seu comportamento exemplar e não hesita em culpar o vizinho ou todos eles. Para o juiz, a culpa do estado em que se encontra a justiça portuguesa é, sem dúvida, dos agentes do Ministério Público, dos advogados e dos políticos incompetentes. Já o procurador se queixa do Governo, da falta de meios que este lhe concede, dos deputados que fazem más leis, dos juízes que se julgam infalíveis, dos advogados que não cessam de criar problemas e das polícias que estão às ordens do Governo. Os advogados não têm dúvidas e apontam o dedo aos deputados, aos magistrados e aos procuradores, sem esquecer as polícias. O ministro, por sua vez, invoca a independência dos juízes para justificar o seu absentismo, ao mesmo tempo que se queixa das polícias, dos advogados e da verdadeira máquina de poder que é a Procuradoria-Geral. Os polícias consideram os juízes brandos, os deputados inúteis, o Governo oportunista e os advogados obstáculos à justiça. Em comum, os corpos judiciais e outros “operadores” condenam os cidadãos impacientes, os comentadores e os jornalistas. Também em comum, o seu desinteresse pela causa pública e pela reforma deste estado de coisas. Há centenas de magistrados, procuradores, polícias e advogados que cumprem os seus deveres, que se esforçam por ser bons profissionais, que trabalham mais horas do que deles se esperaria, que resolvem casos a tempo, que dirimem conflitos, que nunca são fonte e origem de problemas e que resistem à volúpia do protagonismo televisivo e jornalístico. Mas essa não é a percepção que os cidadãos têm da justiça. Essa não é a marca da justiça portuguesa. Algumas características do sistema e o comportamento de uns punhados de “operadores” fazem da justiça o pior da sociedade, quando deveria ser o melhor. A justiça portuguesa sofre, no seu conjunto, da má reputação que alguns dos seus dirigentes ou responsáveis têm na opinião pública. É atingida pela incompetência dos deputados e pelo medo dos governantes. Colhe as consequências das políticas públicas. Tem a má fama causada pela rede de cumplicidades tecida há muito entre políticos e magistrados e fielmente traduzida na génese e na actividade dos sindicatos de magistrados. A justiça deveria ser a última instância de confiança. Deveria ser o exemplo. Em vez disso, é um caso. Um problema. O mais grave problema português.
Sociólogo
Artigo publicado no jornal PUBLICO de hoje.
Vital Moreira
3 Maio, 2009
Porque razão o PS levou Vital Moreira às comemorações do 1º de Maio da CGTP? Esta é a pergunta que importa fazer. Será que VM é um especialista em trabalho, ou em trabalhadores?
Penso que não. O partido do sócrates é especialista em propaganda, isso é inegável. Ao enviar VM estavam à espera de alguma reacção adversa para poder capitalizar com essa mesma reacção.
Segundo o jornal Publico:
Apesar de lamentar este tipo de actos, Freire entende que a escolha de Vital para chefiar a delegação do PS no 1.º de Maio “cheira a oportunismo” e tem contornos de “sessão de campanha”.
“O Governo convive mal com os sindicatos, critica a CGTP, e Vital Moreira tem secundado o Governo nestas críticas. É estranho que o PS tenha enviado um candidato altamente colado ao Governo para uma manifestação da CGTP, como se fosse um agent provocateur”, diz, lembrando ainda que, até Novembro de 2007, o Executivo socialista instaurou processos crime contra mais de duas dezenas de dirigentes da Intersindical.
Concordo inteiramente. Há até um pequeno pormenor que me parece elucidativo. Nas imagens vê-se que VM e os seus acompanhantes do PS estão sorridentes e descontraídos. Não me parecem muito preocupados e constrangidos, mas até satisfeitos como o efeito provocado.
Exigindo um pedido de desculpas aos comunistas, o primeiro-ministro converteu a agressão a Vital numa acção de “ódio ao PS”: “O que aconteceu foi um incidente absolutamente lamentável de sectarismo baseado num ódio ao PS.” Para Meirinho esta “estratégia” de alargar as repercussões do caso não é estranha às tácticas dos partidos do poder: “Há sempre uma tentativa de aproveitarem estes factos para reforçarem as suas estratégias.” Neste âmbito, as agressões a Vital tem diferentes tipos de efeitos, conforme os actos eleitorais: “Nas eleições europeias os efeitos são muito fracos ou nulos”, nota, “mas nas legislativas podem ser significativos.”
Meirinho acredita que Vital “não fará um aproveitamento” do incidente. Mas não pensa o mesmo relativamente ao PS. “É evidente que tentará tirar dividendos. Estes factos serão sempre enquadrados na táctica política para as legislativas”, diz. No contexto das consequências a médio prazo, Pedro Lomba teme por uma “instabilidade crónica” resultante do reforço dos votos nos partidos da esquerda. Sustentando que a agressão foi uma demonstração dos “ódios” entre as esquerdas, Lomba prevê um cenário futuro de inconstância.
Não posso concordar com agressões, quaisquer que elas sejam, mas não também não nasci ontem. Houve apupos e algumas agressões, mas creio que tudo foi planeado para assim acontecer. Lamento esta forma de fazer política, quer por parte do PS quer por parte dos apoiantes da CGTP.
É claro que com toda esta “cena” ninguém falou das reivindicações dos trabalhadores. Seria de esperar que neste 1º de Maio houvesse muitas reivindicações e críticas a9o governo, e ao PS, mas com esta encenação o que se viu? As televisões e rádios falaram apenas do Vital Moreira e o próprio primeiro ministro aproveitou para entreter os media com o pedido de desculpas que o PCP devia pedir ao PS. Mas, como é óbvio, todos sabemos, que o PCP nunca iria pedir desculpas ao PS.
Agora, uma coisa parece notória, as pessoas, e os trabalhadores em particular, estão a ficar fartas do PS e das suas manobras e arrogâncias. É bom que eles percebam isso. Aliás veja-se o que aconteceu ao PM em Melgaço – foi apupado. Ora o Minho interior não é um lugar habitual para os comunistas, pelo que se conclui que o povo está farto destes políticos.
Veja-se a propósito estes blogs:

Vivemos na crise
26 Abril, 2009
Por todo o lado se ouve falar de crise. Não sabemos as consequências da crise. Estamos todos à espera de ver para onde vamos. É inevitável uma certa visão pessimista da nossa situação. Será a mais verdadeira? Provavelmente ninguém saberá responder, mas também é verdade que não devemos viver no mundo da ilusão. Acho que devemos estar preparados para tudo.
Neste sentido acho importante a visão deste senhor senhor. Niall Ferguson afirma que “”Estamos perto do desastre da década de 1930″. Pelo sim pelo não convém ler o que ele diz e estar atento aos sinais que vão surgindo aqui e ali.
Opiniões – Mário Crespo
15 Abril, 2009
2009 2009-04-13 “Estava um dia frio e límpido de Abril e os relógios batiam treze badaladas” e eu dei comigo a pensar: ‘Se calhar o melhor é passar um pano encharcado em creolina sobre isto tudo e deixarmo-nos de coisas porque a melhor política é o trabalho e qualquer dia… toca-me a mim’. Do Ministério do Amor já tinham vindo sérias admoestações. Recordam-se do zelador da justiça que, questionado por um jornalista mais impertinente sobre se o “Grande Irmão” poderia ser constituído arguido, respondeu: “Olhe, até você pode ser constituído arguido”? E não é que foi mesmo! Só na última semana foram uns três! Tudo isto para que não haja dúvidas que na “Oceânia”, como foi dito, “não é qualquer director de Jornal com as suas campanhas” ou “uma qualquer televisão quem governa”. Quem governa na Oceânia é “quem o povo escolhe”. Por isso, estes três (e brevemente serão mais) obviamente foram entregues ao Ministério do Amor (um deles já foi ouvido) e agora vão de certeza parar à Sala 101 onde “confrontarão os seus piores receios” até aprenderem a amar sem reservas quem tanto bem lhes faz e a quem tanto devem. Tem que haver uma punição exemplar por esta ingratidão dos que não reconhecem o imenso trabalho que tem sido feito pelo Ministério da Abundância na “distribuição de rações”. Como é que os amigos não os denunciaram (como foi feito, e bem na DREN)! Então o Ministério da Verdade não tinha já decidido dar mais um ano de completo bico-calado sobre tudo! E eles (e elas) a pisar cada vez mais o risco contando coisas! Falam de pressões sobre o próprio Ministério da Verdade! Subornos no Ministério da Abundância e, sacrilégio ultrajante, sugerem que há corrupção a alto nível! Qual nível? Ao nível do topo do “Partido Interno”! Como é que se pode dizer uma coisa destas e esperar fazê-lo com impunidade, aqui na Oceânia onde a Abundância é inigualável, e a paz e a justiça nas ruas é garantida por dez mil novos disparadores Glock-19 de 9mm! O Ministério da Verdade já exortou à serenidade com um brilhante anúncio na Rádio e na TV informando que as manifestações de rua são “contra” os cidadãos. E eles não quiseram acreditar! E mesmo no Período do Grande Silêncio decretado pelo Ministério da Verdade divulgaram coisas como se quem mandasse na Oceânia fosse um “qualquer Director de Jornal com as suas campanhas” ou “uma qualquer televisão”, quando todos sabemos que quem manda é “quem o povo escolhe”. Por isso vamos passar a esfregona bem encharcada em creolina sobre tudo isto e, com o Grande Silêncio garantido pelo Ministério da Verdade, com os desviantes na “Sala 101″ a aprenderem a estar calados quando os mandam, o povo sereno votará e escolherá quem quer que continue a mandar na Oceânia. As listas para o “Partido Interno” já estão quase prontas. Depois vêm as do “Partido Externo”. Nessas, os descontentes ao verem como ficam os jornalistas que o Ministério da Verdade vai levar à Sala 101, aceitarão de vez o Grande Silêncio e terá “chegado o grande momento. Salvar-nos-emos, seremos perfeitos.” PS: As frases entre aspas, mais inspiradas, são do 1984 de George Orwell. As menos inspiradas são de 2009. Quanto ao mais, como Marx diz no Capital, “muda-lhes os nomes e esta é a tua história”.
Mário Crespo – Opiniões – Jornal de Notícias
Diferentes visões sobre um problema
4 Abril, 2009
Perante um problema podemos ter sempre duas visões. cabe-nos a nós encarar a vida de uma forma positiva.
Ver este post é muito enriquecedor.
A questão das avaliações
5 Março, 2009
Uma vez mais o Sr. Director do DN prima de uma forma enviesada de crítica aos funcionários públicos. Assume que estes não querem ser avaliados, ponto final. Mas o que sabe ele? Será que os funcionários não querem mesmo ser avalaidos? Ou contestam a avaliação que este governo lhes quer impôr?
No DN de hoje lê-se:
“Tribunais. A nova avaliação que o Governo quer aplicar a toda a administração pública está a gerar polémica nos tribunais. Os profissionais temem que o sistema se baseie apenas na quantidade de processos despachados e lembram que isso não está nas mãos dos funcionários mas na dos juízes.
O Governo quer avaliar os funcionários judiciais consoante o números de processos que despacham, cobranças que fazem e actas que concluem. Isto, no âmbito do sistema de avaliação do desempenho que o Executivo quer aplicar a todos os trabalhadores da administração pública. E tal como os médicos e professores, também os funcionários judiciais não aceitam este novo modelo que dizem “estar cheio de falhas”.
Fernando Jorge, presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais (SFJ – a estrutura sindical que se encontra neste momento a negociar o estatuto com a Direcção-Geral da Administração da Justiça – considera que o sistema de avaliação “está cheio de problemas”.
Isto porque o novo sistema estabelece objectivos quantitativos e avalia a sua concretização. “Mas isso pode ser impossível de cumprir porque dependemos de vários organismos e da lei”, refere o líder sindical, alertando: “Basta um juiz dar menos despachos que os estabelecidos nos objectivos para que o funcionário tenha avaliação negativa”.”
É claro que os funcionários querem ser avaliados, mas contestam, isso sim, a avaliação que o governo quer impôr.
Este governo quer quantificar o que não é quantificável. Tudo para justificar, não a qualidade do serviço, mas a redução da despesa salarial. Aliás, para que serve a avaliação? Para quantificar o trabalho? A avaliação deve servir como forma de avaliar a qualidade (eventualmente, nalgus aspectos, a quantidade) e deve ser formativa. Deve apontar os aspectos positivos e negativos do trabalhador para que este possa melhorar os aspectos negativos e reforçar os aspectos positivos. Só assim todos beneficiarão com a avaliação. O que o governo quer só vai criar climas crispados nos locais de trabalho e benefício nulo.
Posto isto, é completamente revoltante ler o Editorial do DN. O seu autor (o director do jornal?) é tendencioso e pouco honesto intelectualmente ao fazer as afirmações levianas que faz. Aliás basta atentar no título do editorial “Quem tem medo das avaliações”. Não são os funcionários públicos. Se calhar é o governo. Portanto, haja mais coerência e decência na forma como se refere aos funcionários públicos.
Fontes de informação:
Editoral do DN
Notícia sobre avalição dos funcionários da Justiça